Mais de 6.000 pessoas foram mortas em um período de três dias, no final de outubro, durante a ofensiva das Forças de Apoio Rápido (RSF) contra a cidade de el-Fasher, em Darfur, afirmou o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos em um relatório contundente divulgado na sexta-feira.
Segundo a ONU, o ataque lançado em 26 de outubro por paramilitares liderados pelo General Mohammed Hamdan Dagalo foi acompanhado de atrocidades generalizadas que podem constituir crimes de guerra e crimes contra a humanidade. O Alto Comissário Volker Türk denunciou as violações como "chocantes pela sua escala e brutalidade", afirmando que "a impunidade persistente alimenta ciclos de violência".
As Forças de Apoio Rápido (RSF), apoiadas por milícias árabes aliadas conhecidas como Janjaweed, tomaram o controle de el-Fasher, o último reduto do exército sudanês em Darfur, após mais de 18 meses de cerco. O relatório de 29 páginas detalha execuções sumárias, massacres, violência sexual sistemática, sequestros para resgate, tortura e desaparecimentos forçados. Numerosos depoimentos descrevem ataques motivados por questões étnicas.
A ONU afirma ter documentado pelo menos 4.400 mortes na cidade entre 25 e 27 de outubro, e mais de 1.600 outras entre civis que tentavam fugir. Os números são baseados em entrevistas com 140 vítimas e testemunhas, corroboradas por imagens de satélite e vídeos. O número real de mortos é "indubitavelmente muito maior", afirma o relatório.
Entre os incidentes mais mortais, destaca-se o ataque a um dormitório universitário onde aproximadamente mil pessoas haviam buscado refúgio; cerca de 500 teriam sido mortas por disparos de armas pesadas. A Organização Mundial da Saúde também relatou que pelo menos 460 pessoas morreram no ataque à maternidade saudita em 28 de outubro. O campo de deslocados de Abu Shouk, a noroeste de el-Fasher, também foi alvo de bombardeios e ataques com drones.
A violência sexual foi supostamente usada amplamente como uma "arma de guerra", particularmente contra mulheres e meninas da comunidade não árabe Zaghawa, acusadas de apoiar o exército. Milhares de pessoas teriam sido detidas em pelo menos dez centros de detenção improvisados, incluindo um hospital infantil convertido em prisão.
A guerra no Sudão eclodiu em abril de 2023, após uma luta pelo poder entre o exército e as Forças de Apoio Rápido (RSF), mergulhando o país no que a ONU descreve como a pior crise humanitária do mundo. Partes do país estão ameaçadas pela fome, e o Tribunal Penal Internacional está investigando possíveis crimes de guerra e crimes contra a humanidade. A ONU exige que os responsáveis, incluindo os comandantes, sejam responsabilizados, para acabar com a impunidade.