Em Angola, o francês torna-se obrigatório nas escolas a partir dos 10 anos de idade.
Em Angola, o francês torna-se obrigatório nas escolas a partir dos 10 anos de idade.

Em Luanda, a decisão parece uma mudança radical. Desde uma reforma introduzida em junho de 2025, o governo angolano tornou o francês obrigatório como língua estrangeira a partir do terceiro ciclo do ensino fundamental, começando aos 10 anos de idade. Até então, a regra era mais flexível, com o ensino frequentemente opcional e concentrado principalmente no ensino médio, deixando alguns alunos para trás.

Neste país de língua portuguesa com cerca de 39 milhões de habitantes, esta escolha não é um capricho cultural. Segundo Ilyes Zouari, investigador e presidente do Círculo de Estudos e Reflexões sobre o Mundo Francófono, o objetivo declarado é económico. Pretende-se que o francês sirva de ponte com os seus vizinhos imediatos, Congo-Brazzaville e República Democrática do Congo, onde a língua continua a ser uma ferramenta quotidiana para a administração e o comércio. Quando as fronteiras são partilhadas, as palavras acabam por ser também partilhadas.

Uma língua que tenha mais peso na África Central.

A manobra também é política, quase tática. João Lourenço, o presidente angolano, posicionou-se como mediador no conflito em curso no leste da RDC entre o exército congolês e o M23, um grupo paramilitar apoiado por Ruanda. Ele também atuou como intermediário no Gabão para garantir, em maio de 2025, a libertação do ex-presidente Ali Bongo e sua família, que estavam detidos em Libreville desde o golpe de agosto de 2023. Nessas questões, falar a língua da região pode, por vezes, render alguns minutos numa sala de negociações… e esses minutos contam.

O ponto crucial permanece, aquele que os comunicados de imprensa frequentemente ignoram: as escolas, os professores, os livros didáticos. Os detalhes concretos dessa implementação nas escolas primárias não foram divulgados, assim como os recursos humanos, os currículos ou o cronograma preciso de implementação. No entanto, simplesmente tornar uma disciplina obrigatória não basta, especialmente quando se trata de capacitar professores, harmonizar os níveis acadêmicos e evitar que a reforma agrave ainda mais as desigualdades entre as escolas.

O francês continua sendo a principal língua de trabalho na África Central, e Angola parece estar voltando seu olhar para as regiões vizinhas, para além de suas raízes lusófonas. Essa escolha sugere um país que também prevê um forte crescimento populacional até meados do século, com o objetivo de não ficar para trás nas trocas regionais. Na sala de aula, os primeiros verbos aprendidos logo revelarão se essa aposta linguística se tornará um trunfo duradouro ou apenas uma fachada.

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