Na Cinemateca, uma exposição coloca Marilyn Monroe de volta ao centro de sua carreira de atriz.
Na Cinemateca, uma exposição coloca Marilyn Monroe de volta ao centro de sua carreira de atriz.

Para marcar o centenário de seu nascimento, a Cinemateca Francesa dedica uma grande exposição a Marilyn Monroe, em cartaz de 8 de abril a 26 de julho de 2026. A ambição é clara: mudar perspectivas. Não se trata simplesmente de celebrar o ícone loiro que se tornou uma imagem global, mas de colocar a própria atriz, seu trabalho como artista, seu lugar no sistema de Hollywood e as narrativas que, em última análise, a confinaram, de volta ao centro das atenções. Por meio de fotografias, trechos de filmes, roteiros, figurinos e material de arquivo, a exposição busca ir além da mera fascinação pela estrela.

Uma exposição que visa desconstruir a imagem da atriz.

A Cinemateca Francesa parte de uma simples observação: Marilyn Monroe ainda é vista com muito mais frequência como uma celebridade ou um símbolo sexual do que como uma atriz. Em comentários reunidos pela franceinfo, a curadora Florence Tissot explica que a exposição não pretende torná-la "a maior atriz de todos os tempos", mas sim considerá-la "como uma intérprete", visto que sua imagem de estrela há muito obscurece a verdadeira natureza de sua atuação. Este é o tema central da exposição: revisitar os filmes, os papéis e os contrastes que ela criou na tela com a persona da "loira burra" com a qual Hollywood a associou por tanto tempo.

O texto introdutório da exposição também enfatiza essa dimensão. Ele relembra como os comentários da época frequentemente contribuíram para desacreditá-la como atriz, sugerindo que ela estava apenas reforçando sua própria imagem. Contrariando essa interpretação, a exposição destaca o fato de que Monroe se preparava para seus papéis, considerava cuidadosamente suas performances e elaborava meticulosamente suas composições. Filmes como Os Homens Preferem as Loiras, O Pecado Mora ao Lado, Quanto Mais Quente Melhor e Os Desajustados são, portanto, reexaminados sob a perspectiva dessa tensão constante entre sua persona pública e suas ambições artísticas.

Uma figura eternamente dividida entre fantasia, dominação e reinterpretação feminista.

A exposição também mostra que Marilyn Monroe não pode ser separada do sistema que a criou. O sistema de estrelas de Hollywood, a máquina promocional dos estúdios, biografias contraditórias e o fascínio póstumo por sua morte produziram um mito que transcende em muito seus filmes. O texto da Cinemateca enfatiza como as crenças muitas vezes precederam os fatos na forma como sua história de vida foi contada. Exibir Monroe, portanto, significa também expor as narrativas que a moldaram, a reduziram, a sexualizaram e a interpretaram.

Esta reinterpretação finalmente adota uma abordagem mais feminista. A Franceinfo nos lembra que Marilyn Monroe, notavelmente, exigia o mesmo salário que seus colegas homens, e Florence Tissot enfatiza que as interpretações feministas de sua carreira se desenvolveram principalmente após a década de 1970, e ainda mais após o caso Weinstein. Ela resume essa ambivalência dizendo que Marilyn Monroe “personifica uma mulher que parece controlar seu apelo sexual e, ao mesmo tempo, é percebida como um objeto moldado para e por homens”. É precisamente essa contradição que a exposição explora: a de uma mulher que é simultaneamente atriz, produto, estrategista de sua imagem e prisioneira de seu próprio mito. Mais do que uma homenagem, esta exposição oferece, portanto, uma bem-vinda reavaliação de uma figura que pensávamos conhecer.

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